Dia das crianças, um dia no Parque Santa Madalena
O ano é 2018, estamos caminhando para o segundo mês da primavera. O Brasil dentro de algumas semanas escolherá seu novo presidente.
Minha esposa e eu acordamos, oramos, lemos a bíblia e fomos até uma loja de conveniência que fica em um posto de gasolina na nossa rua e tomamos nosso café da manhã lá.
Após tomarmos café encontramos os voluntários na estação, caras felizes, animadas, todos pareciam ansiosos para chegar ao destino final. Da estação do metrô fomos de ônibus até o número dez mil e oitocentos de uma das maiores avenidas da América Latina, a avenida Sapopemba.
Durante o trajeto, muita conversa, brincadeiras e todos continuavam animados. Encontramos mais alguns voluntários em frente a uma padaria na avenida Sapopemba, dali partimos a pé com destino à comunidade que vive no Parque Santa Madalena.
Caminhamos alguns metros e nos deparamos com uma rua inundada de lixo, muitos papéis, copos descartáveis, garrafas quebradas, tudo isso em frente a uma escola mal cuidada, onde alguns garotos brincavam na quadra de esportes.
A cena parecia pós apocalipse, mas era pós baile funk. “Navegamos” pelo mar de lixo, descemos mais uma rua e entramos em um beco estreito malcheiroso com alguns pontos marcados por fezes. Ao final do beco encontramos uma área mais ampla com algumas pessoas, de um lado um boteco e do outro um prédio onde receberíamos algumas crianças e algumas mulheres da comunidade.
Na primeira sala que entramos deparamos com uma mulher que nos recebeu com um sorriso largo no rosto e com longas gargalhadas, era a líder da comunidade, uma das responsáveis pelo evento. Nos deparamos com um imenso bolo coberto com chocolate e as moscas por vezes tentavam pousar sobre aquela superfície chamativa, mas logo alguma mão as expulsava de lá.
Entramos em outra sala e encontramos outros voluntários organizando as roupas que seriam doadas, preparando a comida e tomamos parte no trabalho.
O Chaves, o Kiko e a Chiquinha “também vieram” para o evento e começaram a receber as crianças com muita alegria. As mulheres da comunidade começaram a chegar e escolher as roupas.
Enquanto isso eu saí do salão e me deparei com dois meninos sentados nas escadas, eles aparentavam ter cerca de dez ou onze anos no máximo, então eles pegam o seu brinquedo, afinal era 12 de outubro, dia das crianças!
Eles começaram a manusear o seu brinquedo e o compartilhavam entre si, eles se divertiam. Era um objeto fino alongado no qual era acoplado um cigarro e os meninos puxavam a fumaça e se divertiam fazendo-a sair pelas narinas e pela boca. A brincadeira deles causou em mim um misto de desespero, tristeza, angústia e revolta.
Que futuro estaria reservado àquelas crianças?
Eu já tinha ouvido falar, mas descobri com meus próprios olhos, que no meu país algumas crianças fumam, bebem, usam drogas e morrem jovens. Tão jovens que nunca serão jovens.
Descobri que em meu país muitas crianças não brincam com brinquedos tão legais como os que eu tive na minha infância.
Eu descobri que muitas crianças do meu país tiveram a sua infância e inocência roubadas antes do tempo e que nunca foram crianças.
Eu descobri que a meritocracia nunca visitou o beco da morte, nem nunca brincou com crianças que morrem antes do tempo.
Eu descobri que a vida dá caminhos e tempos diferentes à morte.
Eu descobri que minha infância foi rica e que quem eu sou hoje não é mérito meu.
Em seguida vi aqueles mesmos meninos entrarem no salão e se juntarem às outras crianças e brincarem, estavam se divertindo com o Kiko, o Chaves e a Chiquinha. Eles trocaram a fumaça do cachimbo por doces, bexigas e brinquedos de crianças.
Eu vi o brilho de uma criança de volta aos olhos deles. Talvez eu nunca os verei novamente, mas eu descobri algo mágico que aliviou a minha angústia, eu descobri que enquanto existir uma criança dentro de cada um haverá esperança.
Por mais que esteja cercada por uma realidade cruel, a imaginação de uma criança é mais poderosa que a realidade.
A fantasia alivia as dores de crianças esquecidas por adultos que vivem no mundo real.
Eu descobri que preciso manter viva a minha criança dentro de mim, pois, uma criança jamais abandona outra criança.
Eu quero ser uma criança, “levando esperança, deixando um sorriso, dando o melhor da vida”…
Adultos solucionam problemas, uma criança muda o mundo!

